A espera dos Bárbaros.

A espera dos Bárbaros.

Por Kurt Alois Morriesen.

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 “A espera dos Bárbaros” é um poema de Kaváfis. Conta a história de uma cidade que espera ser invadida pelos bárbaros. Ninguém trabalha, porque os bárbaros estão vindo, o governo não toma providências firmes, porque os bárbaros estão vindo, toda a população fica preparada para a chegada dos bárbaros. Mas eles não vêm, e o poema termina com “Sem bárbaros o que será de nós? Ah! eles eram uma solução”. 
Assim como o poema de Kaváfis, o Brasil espera por uma postura mais serena e austera na política, espera abrir o mercado e coordenar esforços com a União Europeia, espera controlar atos, no mínimo, questionáveis do Congresso Nacional e do STF. Tudo isso seria a nossa solução, entretanto, parece ela não virá tão cedo.

Também parece que não virá a tão esperada retomada da economia brasileira… Ventos da recessão estão em formação, e a desaceleração econômica de gigantes como Estados Unidos, Europa e China são como prenuncio do que está por vir.
O Brasil, que nos últimos anos veio perdendo competitividade na área industrial, será duramente afetado pela a desaceleração Americana e Europeia no médio termo. E para aqueles que gostam de empresas grandes e ineficazes, como Vale e Petrobras, estes irão ver a performance das empresas de minério e óleo caírem ainda mais.
Mas não se preocupem, o mercado brasileiro irá crescer no curto prazo, principalmente porque o Brasil está, sobretudo, desvalorizado e as empresas quase que dormentes. Se a recessão mundial ocorrer este ano, muito do capital especulativo e de curto prazo irá migrar para o nosso país. A economia aumentará rapidamente com o nível de capital injetado em empresas e bancos. Com ajuda do Governo Federal, os bancos irão facilitar o acesso ao capital “barato” para pessoas e empresas.
Veremos, no curto prazo, economistas na televisão e “experts” de bolsas de valores a falar onde e como investir no Brasil. Dirão que o Brasil está tomando os passos corretos para a economia. Será mesmo? Sempre achei meio cômico escutar estes especialistas, principalmente porque apenas existem 450 empresas listadas na Bovespa, já na Inglaterra há 2,600, na NASDAQ temos 3,300, na bolsa de valores de Nova York, algo como 4,000 empresas. Enfim…
O governo Bolsonaro possivelmente ajudará aumentar o numero das empresas listadas na Bovespa com o aumento das privatizações, e assim facilitará investidores internacionais a alocarem ainda mais capital no Brasil. O cidadão de bem pensará que a recessão internacional será uma nova “marolinha”, assim dita por Lula, como foi a crise financeira internacional de 2008.
Não se pode negar que, dependendo dos acontecimentos, pensaremos que somos uma nova república, inabalável à crises e críticas…. Isto tudo poderá soar muito familiar, assim como aqueles boleros bolchevistas de 2010, quando o então presidente Lula tinha aprovação de 90%.
Possivelmente, o Governo deixará para depois as reformas críticas que realmente precisamos, deixará para depois a preservação dos direitos das minorias, relativizaremos sobre a efetivação da lei anticrime de Moro (algo que nós já notamos pelos pronunciamentos do Presidente e pelo presidente do Congresso). Gradualmente esqueceremos que diretores são demitidos por discordar do Presidente sobre dados científicos ou por ter visões diferentes, menosprezaremos a crescente influencia religiosa na seleção e indicação de juízes e promotores federais e relembraremos o caso da eleição para presidente do Senado como conversa de boteco.  
Mas quem se importa? A economia cresce, assim como cresceu no período Lula. E como no passado, bom, a gente sabe o que aconteceu no passado. Mas desta vez, não teremos os europeus ou chineses para nos salvar com os preços inflacionados dos commodities ou pela a ajuda de capital barato dos títulos de dívida dos países ricos. Estaremos sós como os cidadãos do poema de Kaváfis. 
As críticas podem parecer ácidas e indigesta, mas é verdade que o país de hoje caminha melhor que o de ontem, e o país está anos luz do que foi o governo de ontem-ontem. Entretanto, agora não é tempo para abaixar a aguarda como fizerem os cidadãos de Kaváfis, pelo contrário! Hoje, mais do que nunca antes “na história deste país” devemos estar atentos e exigir dos nossos representantes as ações e a coragem dos bárbaros.
Até a próxima.

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