Um artista, várias vertentes

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Descontração, conhecimento, sabedoria para viver e muita cultura, assim se define o artista plástico joinvilense Juarez Machado, que além de deixar sua marca na cidade, no Brasil e no mundo, inaugura o instituto que leva seu nome e visa dar oportunidade aos que querem aprender com ele

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Por Marcela Mayrinck  Fotos Pablo Teixeira

 

“Eu nasci artista”, assim ele explica como a arte entrou na sua vida.  Conta que sempre teve influência da família e gostava de criar objetos, desde seus primeiros brinquedos. O talento é herança da mãe, Leonora Busch Machado, que pintava leques, e do pai, João de Oliveira, caixeiro viajante que estava sempre restaurando e às voltas com invenções voltadas para arte ou utensílios e aparelhos. Lembra que, durante sua infância, após o jantar a toalha de mesa dava lugar a um atelier improvisado no qual seus pais trabalhavam enquanto ele acompanhava, produzindo os mais originais tipos de pipas. “Queria ser o Juarez Machado para o mundo”, revela o homem de 73 anos que ainda jovem quis ser reconhecido pelos seus feitos.
Como artista profissional, iniciou seus trabalhos em 1961, com a obra “Operários do Itaum”, que lhe rendeu o primeiro prêmio de sua vida: 1º lugar no Salão de Novos Pintores em Curitiba. “Observava os trabalhadores saindo das fábricas com guarda-chuvas e bicicletas em dias rotineiramente chuvosos em Joinville, e pintei”. Esta é a obra de abertura da exposição de seu mais novo projeto, o Instituto Internacional Juarez Machado, inaugurado em 25 de novembro com o intuito de trazer à cidade um espaço para demonstrações da arte em todas as suas vertentes, segundo Juarez. “Terá apenas uma mostra minha ao ano, o resto do tempo será usado para dar oportunidade a outros artistas e propostas, como música, literatura, moda, teatro, balé, etc”, afirma.
A exibição de estreia do instituto é uma seleção de seus quadros cujo tema central é a bicicleta, e será nomeada “A bicicleta na vida e na obra de Juarez Machado”. O artista relata que desde que pintou a primeira tela com este meio de locomoção comum em sua cidade natal já tinha planos de um dia fazer uma exposição especialmente com ele. “A bicicleta é uma das minhas musas, pois sua beleza é quase feminina”, brinca, contando que presenciou cenas inusitadas em cima de uma bike, como casamento, danças e até enterros. Entre os quadros desta mostra, há peças que datam de 1961, passando por várias fases e com desenhos inusitados, como uma pequena bicicleta passeando nas pernas de uma mulher, um colar em forma de bikes ou um ciclista passeando em cima de uma melancia. Pode-se concluir, portanto, que criatividade é o que não falta em Juarez, que possui em seu acervo três mil quadros – dos quais 333 preenchem as paredes de sua casa no Rio e Janeiro – e sete mil desenhos.

 

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Lateral do Instituto Internacional Juarez Machado: à frente, a casa em que cresceu, e aos fundos o espaço para exposições

 

Boas lembranças
O local para o Instituto Internacional Juarez Machado foi escolhido por um único motivo: é a casa onde ele cresceu. Reformada e com espaço exclusivo para as exibições e eventos, é um pouco diferente da época de um Juarez criança que olhava as estrelas da janela e pensava “O que será que tem embaixo da nuvem mais distante no horizonte?”.
A casa da família ficou sem o futuro artista em 1960, quando partiu para Curitiba com o objetivo de estudar Belas Artes. Apesar da insistência da mãe para que fizesse um curso de datilografia, Juarez nunca se viu inserido no mundo dos “bacanas”, que trabalhavam em banco e tinham carreiras promissoras. Seu sonho era estudar Artes em Florença, e para isso economizou bastante dinheiro, enquanto servia o exército ainda em Joinville, fazia rótulos e bulas de remédio para as farmácias, além de decorações em datas especiais. “Consegui economizar oito ‘dinheiros’, que só davam para chegar até Curitiba”, brinca, relatando o início de sua trajetória. A experiência na capital paranaense, no entanto, foi compensadora, lá se relacionou com pessoas do meio artístico e conseguiu um emprego na televisão, mais especificamente em uma filial do Diários Associados, onde atuava como desenhista até se tornar cenógrafo. Já no Rio de Janeiro, anos depois, trabalhou na cenografia de programas de humor globais, como Satiricom e Faça Amor Não Faça Guerra. E foi acumulando experiências que Juarez foi convidado a montar cenários de shows de Roberto Carlos e, mais tarde, atuou no telejornal Fantástico como humorista, segundo ele, para “tapar buraco”: “Estava sobrando um minuto em cada intervalo, que era preenchido pelo Chico Anysio, mas ele ficou um tempo sem poder fazer e me jogaram ali”, conta o também improvisador, que acabou criando um quadro apenas com mímicas. Com a carreira deslanchando, o joinvilense sempre teve em mente que não queria fama, e sim reconhecimento: “Não quero ser celebridade, quero ser eterno, respeitado. Não uma simples explosão”. Um belo exemplo de que tal respeito vem sendo conquistado foi o manifesto de alunos de uma creche de Joinville para que o nome da instituição fosse alterado para Juarez Machado. “Fiquei tão lisonjeado que deitei no chão e pedi que cada um passasse por cima de mim, devem ter me achado completamente louco”, conta orgulhoso, evidenciando sua paixão pelas crianças.

 

 

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“O conteúdo extenso prende o leitor, as redes sociais já estão cheias de textos curtos e superficiais.”

 

A parte da frente do Instituto Internacional Juarez Machado será destinada à área administrativa e contará com uma loja de artigos exclusivos do autor, como camisetas, echarpes e lembrancinhas. Haverá ainda uma parte especial para representar os ateliês à moda do século passado, estilo no qual Juarez gosta de trabalhar. Adepto a caprichos, revela que no momento de desenhar se veste a rigor, como um papa para rezar a  missa: “Meu ofício é pintar, para isso tenho que estar bem vestido, uso abotoadeiras, camisa sem botão e até sapato especial”. O momento de expressar seu dom, em suas palavras, é sofrido: “Sou eu brigando e competindo comigo mesmo, pois tenho que fazer melhor do que da última vez”. Durante o ritual, ainda faz questão de tapete persa e uma taça de champagne, tudo embalado por um bom jazz.

 

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Um pouco de tudo
O artista joinvilense ainda possui, em seu acervo, fotos, cartas e poemas que também quer mostrar ao público em um futuro próximo. “Há fotos mais malucas com as pessoas mais maravilhosas, cartas que recebi de Carlos Drummond de Andrade, escritas que troquei com Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Jorge Amado, Millôr Fernandes… sempre tive uma relação com esse universo”, ressalta. Como se não bastasse, está trabalhando em uma nova coleção, a “Rependimento”, em que lança mão da técnica na qual o quadro recebe a pintura, espera madurar e em seguida é feito outro desenho por cima, de forma que ambos tenham uma relação. “A pessoa deve ter olhar para compreender as duas leituras”, explica Juarez.
Esse jeito de nunca parar, gostar de mudar e inovar é visível até na maneira como leva a vida, morando atualmente em três cidades: Joinville, Rio e Paris. “Mas quando posso dou uma escapada para algum lugar diferente, arrumo um espaço e passo a morar lá. Gosto de falar que sou líquido, pego a forma do vaso que me contém, me adaptando facilmente”, diz, enfatizando que sua pátria é o mundo.
A experiência em diversas áreas de cunho artístico lhe proporciona esse jogo de cintura, versatilidade e tanto conhecimento. Com a curiosidade e faro observador aguçados, quando residia no Rio de Janeiro observava as produções teatrais e televisivas, pintando cenários e aprendendo a lidar com câmeras, com macetes como a  melhor maneira de se posicionar e os movimentos adequados para o tamanho da tela.  Tem gosto pela leitura, escrita e até arrisca a dizer que o jornal irá voltar às épocas anteriores, com mais conteúdo e informações mais completas. “São coisas que prendem o leitor, as redes sociais já estão cheias de textos curtos e superficiais”, afirma.
Em sua trajetória, Juarez fez amizade com moradores do hospício descobrindo ali verdadeiros artistas, passou algum tempo no sul da França a procura da “luz” certa para pintar, viaja e vive o mundo, casou-se, teve três filhos – João, Thessia e Ruy -, se separou, hoje namora mas não mora junto, pois afirma ser “anti-higiênico”; despediu do seu grande herói que era o pai, fez livros infantis, vem marcando seu nome na história e, agora com o instituto, traz encanto para os olhos dos visitantes e inspiração aos que sonham um dia ser como ele.doogee x5нет водыcrm b2bmedia Artoxконтекстная рекламанаполнение сайта ценателеканал возрождение владимир мунтянрынок систем электронного документооборотамедицинская форма 86

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