Que cidade você quer?

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Eu era um grande idiota quando estava no colégio. Acreditava que os problemas do mundo e do Brasil eram solucionados por grandes organizações e governos centrais. Havia um colega que dizia o contrário, que a conservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável começava na esfera local. Demorou muito tempo para que eu aprendesse que o meu colega estava certo e eu, redondamente enganado.
É um fato que as mudanças sociais e ambientais começam na esfera local, e é o nosso dever fazer com que elas aconteçam e se manifestem em nossas vizinhanças, bairros, cidades, estados. Você entendeu a ideia?

Por exemplo, foram os cidadãos de Londres que juntos pressionaram o governo a criar a primeira lei do mundo de preservação ambiental de 1869. A proposta era bem simples, sem uma lei que preservasse determinadas espécies, estas iriam desaparecer, logo empresas e negócios que dependem destas espécies seriam extintos. Vejam vocês, os nossos antepassados de 1869 não tinham ido a Lua ou acesso a internet, mas sabiam conceitos básicos de sustentabilidade ambiental.
Outro foi o Governador de Nova York, que criou o Central Park. A ideia era que a preservação verde e localização central do parque promoveria o bem-estar de todos que vivem na famosa Big Apple. Por várias vezes, empresários, agentes imobiliários e políticos tentaram reduzir ou mesmo liquidar o Central Park. Mas os Nova Yorkinos se rebelaram contra o pensamento econômico de curto prazo. Como resultado, hoje é impensável pensar uma Nova York sem o Central Park, e seus prédios históricos.
Tanto a preservação ambiental como a urbanística são investimento de longo prazo para cidades e sociedades.

Infelizmente, há muitos que pensam que a beleza das cidades são prédios altos e mais altos. Acreditam que parques e áreas verdes não tem espaço em centros urbanos ou centrais (um parque longe de um centro urbano é um parque incompleto), ou pior, creem que o desenvolvimento de uma cidade somente pode acontecer em detrimento do meio ambiente.
Certa vez, aterrissando em São Paulo, escutei de uma menina do banco de traz do avião a seguinte frase: “olha mãe, um cemitério!”, imediatamente olhei para a janela para ver o tal cemitério. Não havia cemitério nenhum, mas sim a imensidão de prédios cinzas que cobrem a cidade de São Paulo. São Paulo não é uma Nova York, mas ainda hoje, há pessoas e empresários que querem reduzir espaços verdes da cidade para construir mais prédios, mais garagens, mais shoppings…
O resultado disso, como diria um cidadão londrino de 1869 é bem simples, com a redução de áreas verdes o microclima desaparece, ao desaparecer o microclima, temperaturas aumentam drasticamente (lembre Joinville ou Jaraguá em Fevereiro), mais, com a redução de área verde, a qualidade do ar desaparece, e como consequência, muitos dos imóveis não se valorizam no longo prazo. O custo final de tudo isso cai sobre o município e sobre a população que vive nele.
Escutei de um colega que Joinville se prepara para repensar o seu Plano Diretor. Este é um momento único para você, cidadão, fazer parte das discussões. O futuro das áreas verdes da cidade está em jogo. O futuro da urbanização sustentável está nas suas mãos. E se você acha que isso é coisa que vai consumir muito do seu tempo, lembre daqueles cidadãos que investiram tempo para criar a primeira lei ambiental do mundo, lembre das nossas trisavós dos anos de 1800 que juntas lutaram para terem o direito ao voto. Sim, sem a insistência delas, você, mulher, não teria o direito de votar!
Este é o momento para sugerir ao município novas ideias de urbanização, é o momento de trazer estudantes, trazer estudos, trazer inspirações para o futuro que queremos ter.

Por exemplo, por que não criar incentivos a propriedades urbanas que são repletas de vegetação nativa ou verde? Estas propriedades beneficiam o microclima e proporcionam uma área verde para a cidade sem criar um ônus ao município. Ao isentar o IPTU destas propriedades, os proprietários teriam um benefício direto para não sucumbirem a visão de curto prazo dos agentes imobiliários, os mesmos que um dia queriam fazer de Nova York uma nova São Paulo.

Quem saiba eu seja muito otimista com o futuro das nossas cidades ou quem saiba eu ainda seja um idiota de imaginar que as pessoas de Joinville e região possam um dia serem iguais os nossos antepassados europeus.

E isto, só o tempo dirá se estive errado.

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