A outra face de Maitê Proença

A outra face de Maitê Proença

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No auge dos seus 56 anos, a atriz continua investindo na carreira de escritora e veio a Joinville lançar mais um livro e falar sobre filhos, educação, cultura e como suas duas profissões se complementam

 

Por Marcela Mayrinck  Fotos Pablo Teixeira

 

Em sua 11ª edição, a Feira do Livro de Joinville teve duração de dez dias e trouxe escritores conhecidos por diversos públicos, como Pedro Bandeira e Paula Pimenta. Porém, entre tantos nomes importantes o maior destaque foi o da atriz e também escritora Maitê Proença, que veio lançar seu livro “À Beira do Abismo me Cresceram Asas”. A história é sobre Teresinha a Valdina, duas grandes amigas que vivem em uma casa de repouso e tentam levar a vida de maneira leve e descomplicada. Este é o quarto livro de Maitê – os outros são “Uma Vida Inventada”, “É Duro ser Cabra na Etiópia” e “Entre Ossos e a Escrita” -, e já foi adaptado para o teatro.
Durante e Feira do Livro, a atriz e escritora deu uma entrevista coletiva, acompanhada do vice-prefeito Rodrigo Coelho e do editor da Giostri (editora de suas obras), Fábio Costa. Em seguida se dirigiu para o estande onde deu autógrafos e concedeu entrevista exclusiva para a Premier. Em seguida você irá conferir na íntegra a entrevista coletiva, assim como as questões respondidas à Premier. É notável, através de suas respostas, a mente fervilhante por trás das madeixas louras: para cada pergunta, respostas abrangentes e contextualizadas, que abordam educação dos filhos, princípios da sociedade atual, beleza versus talento, sistema educacional no Brasil e muito mais.

 

 

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O que você, como autora de livros, acha que se pode fazer para incentivar o hábito da leitura, principalmente nos jovens?
Maitê:
O papo é longo, né? Mas eu considero a leitura algo insubstituível, quando lemos uma história, somente nós, leitores, iremos idealizá-la. Tudo que é escrito fica muito pessoal, é uma experiência íntima, por isso que é intransferível. O filósofo francês, Luc Ferry, diz que estamos em uma sociedade de consumo, na qual há muito amor pelas coisas, e valores como bondade, dignidade e honestidade estão caindo e sendo substituídos pelo que gastamos com compras. Eu não critico isso, pois por um lado (o consumo) é sedutor, afinal, queremos ter coisas. Porém, não é verdade que essas coisas te agreguem valor, não estão ligadas a sua personalidade. Com o passar do tempo, as pessoas ficam tristes, entram em depressão e até se matam, porque chega um momento em que enxergam que elas não têm o valor daquele tênis de marca e dos artigos de luxo. Entre os pilares da sociedade ocidental estão o amor, que é indispensável, e a lei, que anda capenga, porque os pais não têm mais coragem de ensinar os filhos. Não têm tempo, não sabem dizer “não”, os filhos ficam à deriva em um universo de consumo e criam valores tortos porque os pais os amam demais. Aliás, esse negócio de amar filho não existia antigamente, deixavam com a ama-de-leite e só começavam a gostar dele quando atingiam os 17 anos. Hoje amamos tanto, que não temos coragem de educá-los. Fatores como o comodismo também colaboram para que as crianças cresçam sem orientação, sem lei, sem caráter, sem moral, sem nada. Na história original da Cinderela, por exemplo, as irmãs más são punidas com uma ave que come seus olhos, cegando-as; e depois são condenadas a viver com um sapato de ferro que tem uma lâmina dentro. E vocês acham que as crianças pensam que isso é maldade? Não, elas acham que está muito certo, afinal quem faz coisa errada recebe castigo, é bom que elas saibam disso. Pode ser maniqueísta, mas é a melhor maneira de dá-las a noção do que é certo e errado desde o começo. E isso pode ser feito através dessas belas histórias, que funcionam mais que apenas conselhos. E aí voltamos para a questão da leitura. Se você quer que seu filho leia, leia para ele.

 

 

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“Se você não ficar arrogante, eles vão te ajudar. Por isso, pede ajuda, tem sempre um ‘Zé’ Wilker do teu lado para te estender a mão”

 

Depois desta carreira, mais do que consolidada, quando e por que se deu esta sua transição para autora de livros?
Maitê:
Nada na minha vida é muito planejado, não fico pensando no que vou fazer daqui um, dois anos. Quanto à transição, em um determinado ponto da carreira de atriz, estava frustrada, via que não estava oferecendo 100% de mim, eu tinha muito mais para oferecer. Vi que podia ter uma marca muito mais pessoal do que aquela que estava imprimindo como atriz, e se fosse continuar atriz, era fundamental que fizesse de outra maneira. Então parei de atuar e fui escrever. A escrita me permitiu fazer uma escavação mais profunda, porque quando você escreve, não tem ninguém te olhando, depois se quiser é só jogar fora e ninguém vai ler. Assim, encontrei uma linguagem própria, a forma de fazer que era só minha. Não estava copiando ninguém, nem tentando imitar nada. Não era tanto o conteúdo, mas sim como eu estava escrevendo que me dava prazer real. Percebi que se eu pudesse escolher, teria feito o caminho inverso, talvez tivesse escrito antes e depois virado atriz. Como tinha muitas questões emocionais para resolver – eu não sabia disso na época -, tive que resolvê-las aos olhos do público. Quando você tem segredos e mistérios no seu íntimo, não dá para fazer isso, com um monte de gente olhando. O instrumento do ator é a emoção, você tem que puxá-la de um lugar muito sensível, tem que estar com tudo isso à flor da pele. E eu não estava com aquelas emoções disponíveis, portanto chegou uma hora em que tive que parar, não dava para fazer mais nada. Vi que se eu fizesse ia ser mentira, eles (o público) não iam perceber que era mentira, mas eu sabia. Então parei, fui escrever, e quando voltei, era outra atriz, muito melhor, muito mais interessante.

 

Depois dessa fase, o seu olhar sobre o texto de um capítulo de novela, por exemplo, mudou? Em que proporção?
Maitê:
Se mudou ou não eu não percebi. Compreensão dos personagens eu sempre tive, o que não tinha era disponibilidade para a entrega necessária. E hoje tenho, um belo dia  não tinha mais medo. Podia mergulhar, se tivesse que arrebentar eu me arrebentava, depois levantava, já levantei tantas vezes. Então pensei: Quer saber, vou fazer, se errar eu conserto, a única maneira de acertar é errando mesmo. Se não tiver a coragem de errar muito, nunca vou acertar. Se eu errar muito vocês me desculpem, tá? (risos). Mas acaba que a gente acerta mais, e nos tornamos mais humildes. Outra coisa primordial para o ator é escutar o diretor, seus colegas, pedir opinião, ouvir o que eles dizem. Se você não ficar arrogante, eles vão te ajudar. Por isso, peça ajuda, tem sempre um “Zé” Wilker do teu lado para te estender a mão.

 

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“Tive que resolver minhas questões emocionais aos olhos do público. Quando você tem segredos e mistérios no seu íntimo, não dá para fazer isso, com um monte de gente olhando”

 

Depois desse trabalho de três livros diferentes e um de dramaturgia, como surgiu em você a ideia de desenvolver esse texto no qual também encena como atriz, no palco?
Maitê:
Esta é a terceira peça que eu escrevo e que acontece. Afinal, uma peça precisa ser vista, ela só acontece quando entram diretores e atores. Por isso que é pequenininha, eu tentei muita coisa, dei dicas de toda uma encenação, de tudo que acontece no palco. Também não adianta indicar muito, porque os diretores são rebeldes, eles pegam tudo que você mandou fazer e fazem diferente, são criativos. Neste caso, a diretora rebelde sou eu mesma. Escrevi a peça e nem ia atuar como atriz. Mas para conseguir patrocínio, vi que seria melhor que eu atuasse. No fim acabamos fazendo tudo ao contrário do que autora mandou (risos). Resolvi publicar esta obra porque todo mundo me perguntava o que era a narrativa, as pessoas ficam para conversar com o elenco depois da sessão, elas querem que a gente explique. E eu queria que o público pensasse sem perceber que estava pensando, por isso que tem muito humor na peça, apesar de falar de coisas sérias.

 

O que você tem a nos dizer sobre a presença do livro de teatro nas escolas para os jovens estudantes que estão desenvolvendo o hábito da leitura?
Maitê:
Em primeiro lugar acho louvável o que a Giostri faz, de serem os únicos no Brasil a publicar teatro. É uma maravilha que tenha quem se interesse por isso. Mas eu estudei em  escola internacional e tinha uma professora de inglês, maravilhosa, da qual eu gostava muito. Quando ela dava dramaturgia, nós ríamos e depois fazíamos. A melhor maneira de estimular crianças e adolescentes a gostarem, é encenando sem compromisso. É muito gostoso brincar de ser ator, sentir aquele nervosismo de encenar para os pais, para a família, todo mundo dentro da escola, ver os amigos comentando. O caminho mais prazeroso de se ler o teatro é fazendo.

 

O fato de você ser uma mulher bonita ofuscou seu talento como atriz e diretora?
Maitê:
Eu não sei dizer muito bem porque não sei como seria se fosse de outra maneira. Nasci com essas características, que, aliás, não são nem qualidades minhas, pois quem fez foram papai e mamãe, eu tento fazer uma manutenção (risos). Se me incomodasse muito mesmo, poderia talhar o rosto para aparecer cicatriz e costurar para ficar feia. Mas ninguém tenta ficar feia, todo mundo quer ficar mais bonito, mais apresentável, e eu também. Sabemos que a beleza atrai, você gosta de olhar para um cavalo bonito, uma bela casa ou prédio, uma menina linda… E é bom, agradável, dá alegria ver coisas bonitas. Soube que fizeram uma pesquisa com bebês, que primeiro olharam para um grupo de mulheres feias e não reagiram, mas quando apareceu uma mulher linda – dessas inegavelmente lindas, para todos os padrões – todos eles sorriram. Agora, se (a beleza) atrapalha, eu acho que no Brasil talvez atrapalhe um pouco porque ela está associada à burrice. Ao verem uma mulher bonita já pensam: “Ela não deve ser inteligente, deve ser meio fútil, metida, arrogante, pedante”, enfim, há vários conceitos associados à beleza. Eu vejo as pessoas usando meu nome em vão, como por exemplo, minha secretária. Às vezes entro no escritório dela e a ouço falando: “A Maitê não vai gostar nada disso”. Eu não estava lá, não fui quem falou com eles, mas ela usa dessa forma. Todos meus assessores fazem isso. Aí acabo ficando associada a uma pessoa dificílima. E eu não sou. Mas atribuem a mim uma série de coisas que eles acham que colam na minha imagem, falam que sou estrela, sou metida, exigente, isso, aquilo. Talvez seja pelo fato de eu não ter, desde o início, mostrado todo o talento que eu poderia mostrar, não apenas por culpa minha, mas a gente faz o que pode. Se eu soubesse, aos 20 anos, o que eu sei hoje seria uma maravilha, mas não é assim. Então não vou ficar sofrendo com as coisas que eu fiz errado. Não é que eu fiz errado, fiz da maneira que eu sabia. Portanto o negócio é fazer diferente agora, pois é o que importa, o resto já passou. Não fico me lamentando, tenho essas características, tento usá-las da melhor forma e, se a beleza atrapalhou, que bom, por daqui a pouco ela vai embora e eu tenho outras coisas para oferecer. Aí fico só inteligente.

 

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Maitê atuando em “À Beira do Abismo me Cresceram Asas”

 

De modo geral, como você vê a inclusão digital no cinema?
Maitê:
Eu acho que as câmeras digitais irão substituir a película, ou não, por que ela vai virar ou um tipo de fetiche, uma forma de fazer cinema… vão descobrir alguma coisa para a película. Por ser cara e demorar muito,  a película permitiu que a imagem digital chegasse a um padrão competitivo. É natural, as coisas vêm para substituir outras. Mas na era digital, falamos que as pessoas estão lendo menos, mas estão escrevendo mais, pois todo mundo está passando SMS, escrevendo no facebook. Bem ou mal, tem se feito algo que não se fazia mais, ninguém mais escrevia nada, era um tipo de inteligência que estava caindo em desuso e agora voltou.

 

Como você encara os comentários que julgam que a venda de livros é devida à fama do autor e não à qualidade do texto?
Maitê:
As pessoas gostam de achatar os outros, é uma maneira de se sobressair, de se achar, é um processo narcisista. A pessoa é tão insegura, tem tão pouca certeza das próprias qualidades que a única maneira de se destacar é diminuindo o que está em volta. Isso é um hábito de brasileiro, as pessoas aqui gostam de fazer esse negócio. Acho que a única forma de alguém mudar de opinião é experimentando. Vai lá, lê e vê o que você acha, tenha a sua própria opinião. Chico Buarque de Holanda escreveu aquelas letras maravilhosas, coisas que fez aos 20 anos de idade, porque ele é um gênio. Como é que aquele homem tinha maturidade para escrever esse tipo de coisa? Mas tinha. Quando começou a escrever livros, só levou patada, uma atrás da outra. Ninguém gosta quando a gente muda de setor. É assim, não tem jeito.

 

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Revista Premier: Qual a sua opinião sobre o sistema educacional brasileiro? O que precisa melhorar?
Maitê:
O sistema educacional está todo ruim, ele não serve mais na nova era. Não sei o que propor porque não pensei suficientemente nisso, mas um sistema que forma pessoas que não vão ter trabalho…antigamente se você saísse da universidade, imediatamente teria uma colocação. O diploma era um título que tinha valor, agora não tem. Você tem que se graduar cada vez mais, e ainda assim sempre haverá um chinês que sabe mais que você. Vai ter sempre alguém que sabe mais do que você. Então, as especializações são interessantes, mas eu acho que é preciso saber, cada vez mais, sobre o que é aparentemente inútil, que irá servir para perguntas que ainda não foram formulada. As pessoas estão muito direcionadas: “Ah, eu quero fazer uma determinada coisa”. Aí ela emburrece para todas as outras áreas, vira alguém que não serve para este mundo, que é plural. E o ensino não está vendo nada disso. Eu tenho amigos que têm filhos nos Estados Unidos, por exemplo, que fazem home schooling (escola em casa), eles estudam duas horas por dia, concentradamente, e aprendem muito mais do que se passassem oito horas na escola. Assim não têm que ficar esperando aquele sujeito que é mais lento, a professora que repete a mesma coisa dez vezes na classe, por estar pouco preparada…enfim, está tudo meio torto, é necessário um novo ajuste, novos conceitos e  modelos. Não é só no Brasil. Aqui a gente já sabe. Até o nosso (ex) presidente acha negligenciável o estudo. Mas não foi só o Lula, ninguém estimulou o estudo aqui, por isso todos os países asiáticos ascenderam e se tornaram os Tigres Asiáticos, que estão por cima porque investiram em educação. Não tem nenhum desses países que eram de terceiro mundo e subiram, que não tenha sido através da educação. E a gente continua a ver navios, sendo o país de um futuro que nunca chega. As pessoas sem estudo e sem preparo não têm inteligência, competência e nem opinião própria, ficam esperando alguém que sabe mais falar, para então poderem opinar. Você se torna manipulável, uma pessoa insegura, à deriva de tudo, esperando que os outros pensem e tracem os caminhos do mundo, sendo apenas aquele que segue.

 

RP: Você acha que o hábito da leitura está aumentando no Brasil?
Maitê:
Acho que as pessoas estão escrevendo mais, por conta das mídias sociais. Escrevendo mal, pois não é literatura. Mas estão escrevendo, teclando, produzindo e se expressando através da escrita, o que não se fazia há dez anos. Isso é bom, indiretamente leva ao hábito de ler mais.

 

RP: Como atriz e escritora, que legado pretende deixar para a sociedade brasileira, principalmente os jovens?
Maitê:
Não sei, vou escrevendo a minha história à medida que vou andando. As palavras vão sendo escritos conforme vou vivendo a história a cada dia. Não sei do futuro, não pretendo nada. Tento fazer o melhor possível, nas áreas que escolho, nos projetos nos quais me engajo. E cada vez mais tento fazer de uma forma muito pessoal e única, porque aí vai sair de dentro da minha verdade, não será uma cópia de nada. Então é essa a contribuição que eu quero deixar, algo que tenha personalidade, forma diferente. Com olhar novo, uma nova luz sobre um assunto passado, já visitado… não importa. Quero jogar um olhar pessoal, verdadeiro sobre as coisas, é isso que vou tentar fazer sempre.

 

RP: Se você não fosse atriz, nem escritora, tem outra profissão que te atrai?
Maitê:
Eu seria cantora de rock, seria o Mick Jagger. Se eu não fosse atriz nem escritora, até crooner de boate eu acho bom (risos).тональная основа пупаспорт рефератcrm для банковалександр лобановскийлучшие seo компанииинтернет реклама оконигровые ноутбукиwobsоборудование для пескоструя

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