Uma grande ideia para os pequenos pés

Uma grande ideia para os pequenos pés

Com foco no desenvolvimento infantil, startup de Minas Gerais cria calçados focados na experiência do “andar descalço”

275
0
COMPARTILHE

Uma ideia que saiu da cabeça de uma futura tia e foi diretamente para os pés dos bebês. Trocadilhos e rimas à parte, esse foi o pontapé inicial da designer e agora empresária mineira Ana Paula Lage para a startup Noeh Baby, de calçados e roupas infantis. “Quando meu irmão me disse que ia ter um neném, foi quando o meu mundo se abriu para esse mercado. Como tenho um mestrado em Design de Calçados e Acessórios, quis fazer um sapatinho para esse meu sobrinho que ia nascer. Fui buscar informações pra poder fazer esse sapatinho e não achei nada. Não achei um padrão de cor, nem de tamanho, não havia boas referências para os pezinhos infantis”.

Ao realizar essa descoberta, Ana Paula percebeu um nicho de mercado pouco explorado. “Como eu não achava quase nada de informação, resolvi estudar o pezinho do neném. Durante a pesquisa, eu entendi o quanto ele era totalmente diferente de um pé adulto e a importância desse desenvolvimento correto para a vida como um todo”, conta.

Alguns outros dados chamaram a atenção da designer. “Li um estudo que fala que aproximadamente 75% das crianças chegam aos sete anos com algum problema no pé, sendo que somente 2% realmente nasce com algum problema. Isso significa que 73% desses problemas são decorrentes de um mau desenvolvimento”, lembra.

Foi a partir da vontade de sanar esse problema que a designer partiu para desenvolver o projeto de seu calçado infantil. “Então, foram quatro anos de estudos multidisciplinares, incluindo avaliações biomiméticas – que analisam a natureza para desenvolver produtos e orientações de médicos ortopedistas infantis, fisioterapeutas e engenheiros”, revela Ana.

Pisada natural

O resultado foi um calçado que simula o comportamento da natureza sob os pés das crianças. “Ele simula o comportamento dos pés andando descalços em um terreno natural dentro do calçado. A equipe de fisioterapeutas deu todo o suporte para os testes de laboratório com os usuários, o que certificou que uma criança descalça ou com o calçado desenvolvido tem o mesmo padrão de marcha, ou seja, não altera a maneira como a criança anda, sendo uma caminhada descalça protegida”, explica.

Toda essa tecnologia também foi pensada de modo a corrigir um outro problema. “. Ainda hoje, por não haver estudo nenhum sobre a atropormetria dos pés infantis, a maioria dos calçados no mercado utilizam a mesma forma do adulto, o que acaba alterando a formação desse pezinho e isso somado ao fato de que nós ainda não evoluímos o suficiente para andar no terreno reto e duro das cidades como andamos hoje, já que toda a nossa evolução aconteceu a partir da caminhada na terra, grama, areia, pedra… Enfim, estruturas que são irregulares e que quando você pisa se modificam, é o ideal para o correto desenvolvimento dos pés ”.

Ana Paula garante que, no caso dos calçados da Noeh, a pisada acaba sendo a mesma que aconteceria no solo natural, já que o produto foi desenvolvido com solado irregular e palmilha dinâmica. “Fizemos vários testes com outras quatorze marcas e o Noeh é o único sapato no Brasil dentre os testados que não altera o jeito que a criança anda. Então o padrão dela, o tanto que ela abre a perninha, o tamanho do passo, o tanto que ela se equilibra na caminhada, acontece da mesma forma de quando ela está descalça”.

A designer baseou toda a aplicação dos testes no impacto causado por um calçado no padrão de caminhada de cada pessoa. “Com cada tipo de sapato a gente anda de um jeito. Projetamos o nosso corpo para se equilibrar de um jeito quando estamos de salto, outro quando estamos de tênis, outro quando estamos de chinelo e por aí vai… No caso da criança, se ela está aprendendo a andar e usa um sapatinho que muda a forma como ela anda, isso acaba atrapalhando o desenvolvimento dela, pois a cada sapato ela tem que se readaptar na hora de andar. Então, quisemos projetar um calçado que oferece sempre o mesmo padrão de marcha, o que garante o equilíbrio, a aquisição de experiência e a segurança da criança”, expõe.

O grande segredo do calçado da Noeh é a palmilha desenvolvida e patenteada por Ana Paula. “A partir do estudo de 24 pezinhos de crianças de 0 a 2 anos, criamos uma medida e um modelo padrão. Como percebemos que o pé infantil é extremamente flexível, decidimos que os materiais que utilizaríamos também seriam, permitindo o movimento completo dentro do calçado. Temos um espaço na ponteira pra que a criança possa mover os dedinhos, abri-los e fechá-los. Além disso, o pezinho fica todo em contato com esse material, então, a cada pisada essa estrutura se modifica e se adapta, para que a cada passinho a criança possa se equilibrar e dar o próximo passo”.

Passos acelerados

Desde a criação do produto, em janeiro de 2017, a Noeh já vende 70 pares de sapato por mês no e-commerce do site, cada um ao preço de R$ 196,00 para crianças de 6 a 30 meses de idade. Todos os calçados são aprovados por especialistas que atestam os benefícios para a saúde.

Para desenvolver os protótipos dos calçados, a Noeh contou com o apoio do Senai. Após ser aprovada em um edital, a startup conseguiu R$ 150 mil para criar 21 unidades para testes finais que foram supervisionados por doutores e pós-doutores da UFMG. Com a comprovação de que o modelo desenvolvido não interferia na marcha das crianças, uma máquina foi criada pela entidade pertencente ao Sistema FIEMG para que os primeiros 600 pares fossem inseridos no mercado.

Atualmente, Ana Paula desenvolve em paralelo à startup um doutorado sobre produtos pediátricos e integra a equipe de inovação de um dos maiores hospitais infantis dos Estados Unidos, o C.S. Mott Children’s Hospital em Michigan.

Sem comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

*